sexta-feira, abril 4o jornalismo é o grande diário da humanidade

Alarme sonoro na seta do ônibus: o que ajuda alguns, pode atrapalhar outros

Ônibus circulares de Araraquara estão emitindo um alarme sonoro, um bipe, enquanto a seta do veículo está ligada, pelo menos desde o início do ano de 2025.

Apesar de não haver uma legislação municipal específica, nem normas no Código de Trânsito Brasileiro que determinem o uso de sinais sonoros para ônibus circulares municipais, a medida ajuda pessoas com deficiência visual saber quando e onde o veículo está fazendo a manobra.

A ideia talvez também seja alertar e antecipar o pedestre, ciclista ou mesmo outros motoristas e motociclistas quais manobras o ônibus, que é um veículo grande, fará.

O problema é que, segundo especialistas em autismo, algumas pessoas com o TEA (Transtorno do Espectro Autista) sentem uma enorme sensibilidade e incômodo auditivo e o uso irrestrito desse sinal sonoro na seta do ônibus pode atrapalhar ou interferir no dia-a-dia dessa pessoa com deficiência, desencadeando crises e até convulsões.

Contudo, e ainda segundo especialistas em autismo, a pessoa com TEA e detentora dessa sensibilidade auditiva pode usar protetores auriculares e outros tipos de proteção no ouvido, já que ela também é exposta a outros tipos de ruídos desagradáveis a ela. Mas convenhamos: alarme de bipe é chato demais para todos nós, não só para os autistas.

Quando eu falo em uso irrestrito, falo dos casos em que o motorista fica parado em um semáforo fechado por cerca 1 minuto ou ainda roda por alguns quarteirões com esse alerta ligado sem necessariamente estar indicando algum movimento importante. No centro de Araraquara é possível ouvir vários alarmes de uma vez.

Além do mais, isso faz com que a responsabilidade fique inteiramente com outros integrantes do trânsito e não com o próprio motorista do ônibus. Em outras palavras, parece que a culpa é da vítima. Se o motorista do ônibus confiar plenamente que todos no trânsito estão ouvindo o alarme sonoro da seta, ele pode pensar que a manobra será sempre bem-sucedida, e sabemos de antemão que na prática não funciona tão bem assim. Não resolve o problema.

Tenho a impressão de que estamos vivendo invertidamente em um mundo que busca a solução tirando folha por folha de uma árvore podre, ao invés de cortar a árvore pela raiz. A nossa atenção de maneira geral está a cada dia mais se perdendo nas nossas queridinhas telas. Se todos no trânsito tem a sua responsabilidade e a chamada direção defensiva, inclusive pedestres, por que pesar essa responsabilidade mais para uns do que para outros?

Precisamos muito mais que um sinal sonoro. Precisamos de uma educação maior no trânsito e um acolhimento maior para pessoas com deficiência nos espaços públicos, inclusive integrando e garantindo a segurança de todos.