A minha colega de trabalho, que também é progressista e, diga-se de passagem, talvez a única na empresa depois de mim, me parou num corredor comentando sobre como as pessoas na última semana tomaram posições por causa do resultado das votações para presidente no primeiro turno nas eleições brasileiras.
A “fofoca” era sobre um personal trainer que ela segue no Instagram, que só publicava vídeos técnicos sobre exercícios, mas que na última semana escolheu correr o risco de publicar vídeos sobre política, justamente pela necessidade de se posicionar diante do cenário atual e da urgência que vivemos.
A situação é preocupante.
A política, há tempos, deixou de ser um debate abstrato de palanque e se tornou uma questão de sobrevivência de valores e ética no cotidiano. E parece que pessoas “neutras” se deram conta disso.
Apesar de ser um alívio encontrar nos corredores de uma empresa que tem em sua maioria funcionários proletariados de direita (sim, você leu isso mesmo) uma pessoa católica e com ideias sinceramente progressistas, ainda vivemos em uma bolha tamanha. Infelizmente a minha bolha me deixou convicto de que o campo progressista venceria já no primeiro turno. Mas fora dela vimos que nada disso era verdade.
Assim como começar todos os parágrafos deste ensaio com a letra A não foi coincidência e sim uma escolha, também não é coincidênca o que está acontecendo no Brasil e na América Latina, com a ascensão da extrema-direita. É projeto. É escolha.
A hegemonia cultural do trabalhador de direita foi construída ativamente. E a “frente ampla”, feita para ganhar eleições, só reage, não constrói.
Ainda falta algo aí.
A constância diária de uma responsabilidade social não é posicionar-se em um ato isolado de eleição.
O que estamos fazendo de verdade (ou o que você está fazendo) para, ao menos, tentar quebrar essa ascensão da extrema-direita, assim como quebrei agora a ideia de começar todos os parágrafos com a letra A?
Escrito por Aquino de Morais
